terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sessão NÃO VELADA - EDUARDO

Campainha...

- Olá, Eduardo, bom dia.

- Não dormi bem à noite... e faz duas noites que não durmo bem.

- Está com insônia?

- Insônia... colocou nome ao que chamei de “não dormir bem”. Insônia. É uma linda palavra para tanta incomodação, tanto desassossego,

- Está desassossegado?

- Eu desassossegado? Por que haveria dito isso de mim. Não sei como associar. Um dia desses aconteceram coisas estranhas que nem sei como contar.

- Quem sabe não são estranhas, talvez sejam coisas que você não entende de sua vida.

- Pode ser... há coisas da minha vida que não entendo. Por exemplo, estive toda a semana com vontade de ver Mônica, e no sábado não quis fazer nada, fiquei sozinho em casa... não me entendo, às vezes, quero tentar uma relação mais séria com ela e, às vezes, essa mulher me incomoda. Me pede algo que não sei se não posso ou não quero dar.

- Há diferença?

- Isso é o estranho, não sei se a quero ou a necessito, e além disso ela me pede que a ame, mas eu creio que ela quer que eu a possua.

- Há diferença?

- Não sei. Eu gosto do perfume dela, gosto da maneira que levanta as mãos quando sente raiva de mim, gosto quando fica indiferente e tenho que conquistá-la. Gosto, gosto muito. Mas ela insiste que não a amo o suficiente. Isso me desconcerta, o que é amar o suficiente uma mulher?

- Não sei Eduardo, quem não dorme por essa pergunta é você.

- hahahahahaha... não dê uma de mulher comigo!!!!! hahahaha

- Melhor nos vermos segunda?


Marcela Villavella – psicanalista e poeta Grupo Cero
acompanhe também seu blog – latramamericana.blogspot.com

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009





A Psicanálise nos ensina que não estamos enfermos por algum trauma físico ou psíquico, e sim que estamos enfermos porque temos uma maneira de conceber o humano, o saber, a enfermidade, ou seja, enfermamos pela forma que concebemos a humanidade.

Talvez seja por isso que às vezes escutamos dizer que a Psicanálise não serve para nada. E esta expressão “para nada” pertence a uma frase incompleta que seria: a Psicanálise não serve.


Então a questão é renunciar algo do que se crê. Geralmente se prefere renunciar um novo pensamento que uma velha opinião. Inclusive se prefere seguir enfermo do que aceitar um tratamento, acontece que há mais medo da psicanálise do que da loucura.


Por isso reduzir a Psicanálise a uma terapia é reduzir os alcances da Psicanálise.
A Psicanálise é uma nova maneira de pensar que faz surgir um novo homem, uma nova mulher, um novo pai, uma nova mãe, uma nova maneira de viver e de morrer.


A Psicanálise não tem nada a ver com a medicina, por isso não é uma medicina alternativa, nem ao menos um método curativo ou algo útil para a sociedade.

A Psicanálise é algo sem o qual já não se pode viver. Podemos imaginar a arte sem a Psicanálise? e a publicidade? a literatura? o cinema? a televisão? a ciência? a religião? e o ser humano? e a maneira de conversar? e tudo aquilo que podemos imaginar…

E você o que pensa disso? Interrogar nos faz cair, mais uma vez, na Psicanálise.


Psicanalisar-se é, então, entrar em um novo mundo sem sair do mundo.



Amelia Díez Cuesta
Psicanalista Grupo Cero Madrid

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Sessão NÃO VELADA – Maria Rosa


Campainha.

- Entre...

- hoje durmo no divã...

- sim? ... também pode falar de sonhos

- ah sim, tive um sonho... e acordei no meio da noite com muita angústia... estava no meio de uma cidade que não conhecia, dirigia um carro... e me sentia segura... eu nunca dirigi... sempre tive medo, não tenho curiosidade de dirigir...

- curiosidade de quê?

- ah... me assustei com o que falaste... não sei, curiosidade de... não sei... curiosidade de ser independente?

- podes seguir associando, não é preciso uma só resposta.

- não gosto de pessoas curiosas, me dá medo, na faculdade tenho uma colega que é insuportável, tem curiosidade de tudo, dizem para ler o capítulo 1 e 3 de algum livro, e ela lê o 2 e o 4, sempre parece que quer saber mais...

- e tu não queres saber mais?

- ....

- ....

- parece que estou em uma encruzilhada... às vezes não quero saber de mais nada... estudo, quero me formar em 1 ano, mas não sei se é porque quero saber das coisas, ou para ser normal...

- normal?

- sim, na minha família todos são universitários, é normal... ser médica como meu pai e minha mãe... bom, meu irmão não é médico, mas estuda Letras... ele é o mais divertido da família... talvez se eu tivesse escolhido Letras, seria mais curiosa...

- medicina ou letras... aí se fecham as vias da tua curiosidade?

- parece que sim... quando criança queria ser bailarina, e estudei balé até os 17, mas quando terminei o colégio, a faculdade estava me esperando... e agora falta um ano pra me formar como médica... me dá vontade de chorar... de tudo o que disse...

- ...

- minha mãe adora a vida de médica, meu pai não poderia ser outra coisa, até quando está em casa de jeans, fazendo um churrasco, se vê o jaleco branco, as mãos de cirurgião... às vezes quando o cumprimento de manhã, e fica me olhando e me diz: esse sinal na tua pele, te deste conta?... que sinal??? lhe digo, já incômoda, e ele se dá conta mas insiste e diz, não, não, nada, vamos ver como evolui... e assim são muitas vezes nossas conversas... que curiosidade posso ter... essa??? ver como evolui um sinal, como evoluem as coisas, como evoluo eu????
- ...

- Nico é o mais divertido da família, anda lendo novelas todo o dia... já leste O Perseguidor de Cortazar??? não, Nico, lhe digo, atormentada com os livros de pediatria...

- atormentada com pediatria?

- não sei mais o que dizer... posso ir?



... se foi Maria Rosa... não sei se me pergunto o que ela deveria perguntar-se...




Marcela Villavella – psicanalista e poeta Grupo Cero
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