Campainha
- Entre, encantada de conhece-lo, passe para o consultório, sente-se.
- Olá, obrigado, estou um pouco nervoso...
- Te escuto, o que te traz aqui...
- Bom... estou em um problema... parece que são vários os problemas ou o problema sou eu... faz muito tempo que deveria ter vindo, mas tive tantas razões para não vir... ou melhor dizer, acreditei tanto nas razões que me faziam não chegar...
- Agora está aqui... parece que há momentos que as razões deixam de servir...
- Sim... as vezes não dá mais... as coisas que pensava que iam me ajudar a esperar um pouco mais deixaram de servir como você disse... me separei da minha esposa faz 6 meses... foi uma separação muito difícil, tantas brigas como tantos silêncios... quase não nos olhávamos... éramos sócios do silencio, cúmplices... eu não a queria, mas não lhe disse nada, ela me odiava, e não me dizia nada... brigávamos por coisas idiotas... nem ela acreditava nos motivos de brigas... e eu me acomodava a brigar por qualquer coisa para seguir desfrutando do desamor... que feio... que dor... nossos filhos também se transformaram em silêncios e briguentos entre eles... agora estão um pouco melhor...
- Se separou dessa situação de briga e de silencio, seus filhos estão melhor... me disse que estava em um problema.
- Sim... contei isso porque teria que ter vindo antes me analisar... faz 4 meses conheci outra mulher, uma amizade, não sei como dizer, não estou apaixonado, estou com a separação na cabeça... não estou bem para começar outra relação... não falamos disso, parecia pra mim que ela entendia isso, tem coisas que não se falam... bah não sei...
- O silencio lhe trouxe muitos problemas... melhor falar. Até porque não é tão fácil saber que coisas se falam e quais coisas não se falam.
- Vai ter um filho meu... me disse isso... assim, como se dissesse “agua por favor”... estou assustado, não sei o que fazer... .... ...
- Sim, te escuto, pode seguir falando...
- É difícil entender o que acontece comigo em relação com a vida... essas coisas me deixam mudo... não vejo as saídas.
- Mas veio aqui, quem sabe já esteve muito tempo mudo e surdo e agora aparece uma situação que não pode se fazer de cego.
- Estou paralizado... quando Eva me disse que iria ter um filho, fiquei paralizado, e ela pensou que eu tinha aceitado muito tranquilamente... será que esperava que eu ficasse enojado? Ou que gritasse? Ou que pulasse? Que será que estava esperando?
- Talves que dissesse algo, ou que a abrassasse, ou que lhe mostrasse algo do que sentia com semelhante noticia.
- Outro filho... outra mulher... nem sequer estou divorciado, tem pessoas daminha família que ainda nem sabem que me separei, que acreditam que é temporário, ou que esperam que eu volte com minha mulher... e não disse a ninguém como estão as coisas...
- Quem sabe não disse a você mesmo como são as coisas de sua separação.
- É isso, nem sequer disse a mim mesmo, quando me separei senti um alivio! Como se tivesse arrancado um peso de cima de minhas costas, estava algemado ao silencio.
- O melhor disso é que veio divorsiar-se aqui... do seu silencio.
- Seria muito bom para a minha vida... será que poderei? Tenho muitas espectativas com a psicanálise, mas será que eu poderei?
- O que acha de vir amanhã?
- Sim.
- Vamos falar dos pagamentos agora.
- Vou estar de acordo com o valor que me diga...
- Não quer falar disso?
- Hoje não... hoje falei muito... me dá tempo por favor.
- Bom, então organize tua semana para ter uma entrevista diária.
- Gracias. Gracias. Gracias.
- Te espero amanhã às 8h da manhã.
- Si.
Marcela Villavella – psicanalista e poeta Grupo Cero
acompanhe também seu blog – latramamericana.blogspot.com
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