terça-feira, 22 de junho de 2010

Sessão NÃO VELADA - Marcos

Campainha...

- Oi Ana, te liguei para mudar o horário porque queria vir antes... comecei a entender algumas coisas que preciso analisar.. posso deitar?

- Sim, claro, deita!
- Estive pensando que não tenho motivos nem para me matar nem para matar outras pessoas.
- E qual motivo queria ter?
- Mas como me pergunta isso? claro que não tenho motivos, mas é que vou matar alguém sem motivos, sem odiar ninguém, sem ter problemas econômicos, sem estar em um dilema sentimental entre uma mulher e outra, não tenho nenhuma enfermidade aparente que me ponha em risco, nada me diz que tenho que correr, nem que tenho que produzir nada
- O que quer produzir, te escuto.
- Não sei. Nada, mas estou atormentado, tenho uma espécie de indiferença e horror em todas as coisas. Mas também não sei se é isso... ontem li uma notícia no jornal que me assustou mais: 3 jovens foram assassinados em um descampado, mataram os 3 a sangue frio e não se sabe os motivos... isso me atormentou... algum motivo deve ter... como podem matar esses 3 jovens simplesmente porque sim... como um jogo?... há um jogo da morte não é?
- Não sei, me conta oq eu pensou.

- Um jogo como roleta russa ou parecido, algo que um morre se jogar... não se aposta nem dinheiro, nem nada claro, se paga com a vida.
- Todos pagamos com a vida a vida.
- Sim, mas isso é o normal, porque eu não posso pensar normalmente? quando eu era pequeno meu pai dizia: somos uma familia normal... e não éramos, depois dizia: Não podemos viajar seguidamente porque somos pobres... e éramos os mais ricos do bairro e viajávamos pra Europa todos juntos uma vez por ano e íamos pra nossa casa de praia todos os verões e nos finais de semana... vivíamos confusos com isso... agora estou vivo, talvez até apaixonado pela minha mulher, amos meus filhos e estando mais vivo que nunca, ando transtornado acreditando que vou morrer... tenho muito medo.
- “O amor que tinha nos privado das coisas imortais...”
- Como disse??? O que é isso???
- Lembrei desse poema
- Mas como é?? Não entendo Ana, o amor priva de coisas imortais?? Não sei oq eu quis me dizer, mas estou muito impactado... posso ir?
- Sim, nos vemos amanhã
- Gracias, até amanhã!

Marcela Villavella - psicanalista Clínica Grupo Cero
acompanhe também seu blog -  latramericana.blogspot.com

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