segunda-feira, 19 de julho de 2010
“A criminalidade está muito próxima do amor”.
O médico, psicanalista, pintor, escritor, poeta e cineasta esclarece que deveria ser usado o termo de maltrato familiar ao invés de violencia de gênero, afirma que ainda existe muito machismo nas instituições de nossa sociedade. Segundo ele o termo violencia de gênero não é correto quando falamos de maltrato entre homem e mulher.
Violencia Familiar? O homem não mata a mulher por um tema de machismo, e sim por ciúmes, inveja e amor. É muito difícil encontrar um caso de uma mulher maltratada por um homem que não esteja apaixonado. A criminalidade está muito próxima do amor.
Acredita que a lei está gerando problema? Acredito que segue havendo muito machismo.
Não dizia antes que o maltrato do homem com uma mulher não é pelo tema do machismo? Digo que há muitos machistas na sociedade, quer dizer, as instituições devem proteger a mulher.
Por exemplo? Um juiz deu a razão a um homem porque a mulher, vitima de maltrato, ia bem vestida, “excessivamente” maquiada. Segundo o juiz, era uma provocadora.
Deve ter ocorrido isso há anos? Se me lembro bem, faz dois, na Espanha. É aqui onde está o machismo e não no assassinato ou no maltrato. Vivemos em uma sociedade de homens, criada por homens, legislada por homens. Quando a mulher engana, a matam, e ao homem quando engana, tem prestígio.
Então, a lei contra a violencia de gênero funciona? Eu acredito que não, porque como é possível que com uma ordem de afastamento a mulher acaba morrendo igual? Quero entender e não entendo. Segue havendo o mesmo numero de vitimas. Do contrário haveria uma ou duas mortes.
Como psiquiatra que solução propõe? É preciso evitar que as mulheres estejam contra todos os homens, isso não serve para nada. Temos de “reforçar” a mulher e ensiná-la a cuidar seus relacionamentos amorosos para que não se desviem. Lembro de um filme espanhol “Te doy mis ojos”, onde mostra claramente que quando a mulher começa a depreciar ao homem ele deixa de maltratá-la. Somente quando se submete é maltratada. A mulher precisa fortalecer seu espírito para poder decidir e liberar-se.
A mulher pode se salvar, e o homem? Sou muito negativo (ou pessimista)????? Porque poucas vezes vi resultados. O criminoso deve seguir uma reabilitação e terapia estrita e ainda assim é muito difícil. No ultimo trimestre saíram três agressores reabilitados mas voltar a agredir.
Existe salvação para o casal? Somente se existir um principio de agressão, mas se a agressividade tornar-se crônica ou prolongada é impossível fazer algo. Nesse caso a única salvação é a separação de ambos e o resguardo da mulher. Estou escrevendo um livro para demonstrar que quando as denuncias são tardias???? , há muita probabilidade de que a mulher acabe sendo assassinada. Depois de 10 ou 15 anos de má convivencia, as coisas que são ditas, com tudo o que acontece, é muito mais difícil que a mulher escape.
Quando uma mulher deve pedir ajuda? Na primeira agressão, sem duvida alguma.
Uma bofetada? Não! Uma bofetada, um empurrão leve, são como más palavras. Falo de uma surra. As mulheres que atendemos chegam machucadas, com a mandíbula quebrada, olhos roxos...
O que me diz do novo modelo de agressão familiar, dos pais contra os filhos? As crianças não nascem nem boas nem más, se tornam agressores e isso é responsabilidade da familia e da educação. Isso que está acontecendo agora é resultado de 50 anos de uma educação vitoriana onde se usava a força para castigar a criança. Agora se trocou os papeis. Não é culpa das crianças mas é preciso rever o sistema de educação e a televisão...
Faz tanto mal a televisão? Muito. A televisão só mostra as más noticias, isso faz com que desconfiemos de tudo: professores, pais, chefes. A televisão não ensina a defender-se do mal com o bem, mas sim com o mal.
Você é médico ou poeta? Desde os 13 anos sou poeta mas demorou mais de 40 anos para ser médico.
Fale da escola de psicanálise e poesia que você fundou e dirige. Nós estamos em sintonia com uma corrente que diz que a poesia é um instrumento de conhecimento. A poesia é uma maneira dramática de transmitir ao futuro como estamos vivendo o presente. Na escola os alunos aprendem a profissão de psicanálise e a escrever poesia. É uma profissão muito escrava porque usamos a psique do analista como instrumento e tem que estar bem polida.
O que tem em comum a psicanálise e a poesia? Ambos partem da realidade para falar do imaginário, mas no caso da psicanálise este imaginário é mais restrito já que não fala de todos os inconscientes, somente o sexual. Por outro lado a poesia trabalha todo o imaginário universal. Nossos alunos aprendem que a interpretação é analítica mas a escuta é poética.
Qual método se usa para curar um casal que sofre de agressões? Ele e ela falam com o psicanalista e este intervém somente quando aparece uma falta. O mais interessante é que o próprio paciente consegue falar de coisas que nunca tinha imaginado falar e que aparecem durante a conversa. Não é como curar uma tuberculose onde o médico pode obrigar o paciente a curar-se com medicamentos. Com a psicanálise a pessoa precisa ter vontade e gana de curar.
Poeta, escritor, médico, diretor. Você é um homem do Renascimento? Prefiro dizer que sou pluriempregado.
O que há no futuro? Ficou algo para ser feito? Não. Seguirei com o que estou fazendo, que não é pouco (risos).
Entrevista com Dr. Miguel Oscar Menassa, concedida a jornalista
Marta Cuatrecasa - Barcelona - 02/03/2009
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