A alergia é uma disfunção do sitema imunológico que fabrica anticorpos contra elementos que não ameaçam verdadeiramente a integridade do organismo.
Uma almofada de pelo, o pólen das flores da primavera, um lapis labial, as frutas, o chocolate, o vento norte, podem representar inimigos terriveis para o alérgico.
É comum escutar nas queixas : “é que as mudanças me matam…” incluindo desde as mudanças climáticas e a chegada de nova estação.
Mas na verdade, o que “mata” o alérgico é o novo, o diferente.
Os síntomas podem afetar diferentes aparelhos do organismo, preferem geralmente o aparelho respiratorio ou a pele para se manifestar.
Estas manifestações podem ser ocasionais, como resposta a situações extremas, ou constantes, como uma forma de relação com o mundo.
Para a psicanálise a presença da alergia é um representante da relação estreita que há entre o mundo exterior e o corpo do alérgico, e tudo acontece ali. Não há distancia entre o perto e o longe, entre o mesmo e o próximo ou o si e o outro.
Os fenómenos alérgicos se enquadram dentro da psicossomática e então para compreender seus mecanismos devemos nos remeter ao clima da primeira relação: mãe-filho.
Antes da experiência do espelho, a mãe dá ao filho a ilusão de ter o msmo rosto que ele vê – o rosto dela. Por volta do 8º mês de vida, a criança enfrenta o rosto de um estranho, o próprio rosto, surgindo então a angustia característica deste período, que se instala a partir da captação dessa diferença.
Uma falha nessa passagem fará sempre que a experiencia do rosto seja a do rosto original. Nas relações com o mundo também terá sempre uma tendência a anular as diferenças.
Esta é a aposta do alérgico: estará protegido das crises enquanto mantém o idéntico. Quando o outro revela sua diferença, dá inicio a crise, por exemplo nas mudanças climáticas.
Em relação aos limites, há uma impressão de não reconhecer-se no espelho mas isso não gera angustia porque ao mesmo tempo está perdido no outro.
É possivel fazer um diagnóstico correto de alergia fundamentando-se uniamente na relação com o objeto.
Na histeria, o objeto é mantido a distancia mediante o mecanismo essencial de evitar. O obsessivo neutraliza sua relação com o objeto utilizando rituais. No caso do alérgico, ao contrario, existe em função de algo: o normal é a permanente tentativa de se aproximar do objeto. Seu desejo primordial é aproximar-se de tal maneira do objeto até confundir-se com ele.
A captação do objeto é imediata e total, trata-se de uma manifestação das mais arcaicas, uma identificação profunda e sem limites entre o sujeito e o objeto, uma confusão sem matises.
O sujeito habita no objeto e é habitado por ele. Se identifica com cada objeto que se apresenta a ele e não pode desprender-se, somente quando se identifica com outro objeto.
Através de todas essas relações, o que o alérgico busca é a fusão com sua mãe.
O exemplo é uma pessoa asmática, em cuja história clínica se estabelece, na maioria dos casos, uma intensa relação com a mãe, acessos de fúria e de irritabilidade infantis e um medo intenso de perder o amor da mãe.
O ataque de asma é um equivalente da angustia, uma reação frente a perda, um grito de ajuda para a mãe, com o objetivo de conseguir a proteção de quem habitará sua árvore bronquial.
Para o asmátivo, a mãe é o ar.
Nascer é separar-se da mãe e morrer, mas nascer também é viver, já que não nascer também é a morte.
Não nascer é continuar unido a mãe, esta será a eleição do asmático.
Esta eleição pode modificar-se em um tratamento psicanalítico.
Inés Barrio. Médico psicoanalista
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