sexta-feira, 9 de julho de 2010

SESSÃO NÃO VELADA - Íris

Campainha (dois toques)


- olá...pensei que não estivesse por isso toquei três vezes

- três?

- sim, pensei que não estavas

- estou aqui...

- pensei que não estavas... por isso toquei três vezes a campainha...vinha pensando que chegaria tarde e parece que toquei a campainha uns minutos antes...mas depois olhei novamente o relógio e percebi que estava bem na hora e por isso toquei duas vezes mais...

- estava com pressa?

- não, com pressa não...sou pontual. Não gosto de chegar atrasada...nunca chego atrasada em nenhum lugar...no escritório eu tenho que bater ponto e sempre bato meu ponto um minuto antes...não é incrível??

- o que seria incrível em um minuto antes?

- Isso...sinto que consegui mecanizar minha relação com o tempo, com o trabalho...trabalho muito concentrada e quando saio da concentração ou me distraio, olho pro relógio e é um minuto antes do almoço ou um minuto antes de sair...isso é incrível...sinto que consegui ser eficiente...e além disso cobro 8% mais de salário pela pontualidade e por presença.

- aqui mesmo que sejas pontual e nunca faltes na sessão te escuto igual, algum erro vai ter e algo vou interpretar...

- sim, entendo, mas eu sempre fui assim...não quero mudar isso...não me traz nenhum problema...ao contrário...eu sempre chego antes que todos...

- antes que quem?

- antes que todos...sou a primeira que chego ao trabalho, a primeira que chego num bar se tenho que me encontrar com alguém, a primeira que chego nos aniversários...

- quer estar um pouco sozinha antes que cheguem os outros? Te assusta as pessoas?

- parece que não, mas a verdade é que quero estar um pouco só sim antes que cheguem os outros...me acomodo melhor nos lugares, fico tranqüila e depois quando chegam os outros já me sinto adaptada parece...

- talvez queira ocultar uma inadaptação em ti, um impontual, uma ausente de tudo...

- isto eu não entendi...se eu sempre cumpro com as coisas...

- mas algo inadaptado tem nisso de “sempre”...sempre um minuto antes, sempre antes que todos, sempre presente. A vida não é assim. Alguma diferença há entre um dia e outro, entre uma festa e outra, entre um amigo e outro...

- será que não suporto isso? Isso do diferente?...

- isso que te disse.

- pode ser, hoje por exemplo quis tocar duas vezes a campainha e quando toquei a terceira vez, foi sem querer, mas parece que eu estava angustiada, não posso esperar que abra somente quando possa. Não pude agüentar...era meu horário...tinha que abrir porque estava em ponto...senti que ia te incomodar minha insistência na campainha, mas eu ia me sentir pior se não entrasse naquele minuto exato...agora to com taquicardia...meu coração tá batendo muito rápido...

- Íris...nem teu coração bate sempre da mesma maneira...

- é difícil entender o que acontece comigo...me sinto estranha com o que contei...não gosto de ter dito essas coisas sobre mim...me sinto mal...me sinto ameaçada por mim mesma quando não posso cumprir com as coisas...chegar aos lugares exatamente um minuto antes, isso me acalma para as outras coisas que tenho que fazer.

- Íris...o tempo sempre é inexato e esta sessão hoje vai até aqui. Aqui terminou seu tempo hoje.

- mas faltam 15 minutos ainda, porque vai interromper a sessão?

- por isso...porque faltam é que vamos suspender.

- está bem, mas quero dizer que não é justo interromper antes do tempo

- por isso, porque não é justo, nem exato é que vamos interromper já. Até a próxima.


Marcela Villavella - psicanalista Grupo Cero

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