terça-feira, 31 de agosto de 2010

uma carta...

QUERIDA


Às vezes teu egoísmo me parte o coração, e entretanto, sigo ambicionando esta maravilhosa conversa contigo, mesmo que para que isso seja possível eu tenha que chegar na borda da solidão.

Às vezes, te vejo mais obrigada que apaixonada. Como se nossa conversa fosse um passo necessário, obrigatório para tua vida e não uma terrível, tremenda decisão.

Apesar de ter clamado com todas as forças por uma situação semelhante a que estamos construindo, agora, parece que não consegue suportar bem a cristalização de teus próprios desejos.

Teu destino estava lacrado. Um dia, depois de muitas tentativas, conseguiria te apaixonar por um homem e esse mesmo homem, propriamente apaixonado, te mataria.

Quero dizer, que você sabe que de mim pode se apaixonar sem temores. Sou a fome que decidiu não matar. Agora está claro, para que nosso amor seja possível, tens que abandonar a idéia de suicidar-te entre meus braços.

Livre desses desejos de te matar e te matar, a conversa poderia chegar ao centro da filosofia.

Quero dizer que temos tempo para tudo.

Nós passaremos dando voltas ao redor do mesmo, durante anos, até que um dia a luz ilumine teus olhos e feche os olhos de tua mãe, meus olhos, para sempre. Meus olhos, aqueles olhos imensamente abertos, felinos, imagina? Fechados para sempre.

Para que possa voar, querida, o universo ficará sem luz.

Não blasfeme, meu amor, não blasfeme contra esta virtude imaculada que te ofereço. Aperta contra minhas palavras tuas ultimas esperanças. Vamos saltar para frente, para o futuro que o homem em geral, não pode.

Tudo circula na velocidade além do sol. Um mundo onde tudo retrocede, porque além disso, só há o vazio negro do sol agonizando.

Um mundo, querida, onde todo o passado se faz carne viva – te dá conta? Um mundo onde os velhos amores venham constantemente se instalar em nós, onde nos perseguem os velhos fantasmas, onde a velha humanidade nos sobrecarrega. Um mundo, querida, onde ninguém poderá perder seus sentidos, porque os sentidos já foram perdidos.

Livro  - Poemas y Cartas a mi Amante Loca Joven Poeta Psicoanalista
de Miguel Oscar Menassa

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