terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sessão NÃO VELADA - Silvina

campainha...

- olá Ana querida...perdão pela falta na sessão passada...foi terrível o que aconteceu...sou louca...mas Joaquim se foi na segunda... me disse que não agüentava mais...fiquei louca... no domingo joguei todas as coisas dele pela janela...

- pode deitar no divã e vemos o que é tudo isso que estás me dizendo...

- faz 10 dias que li uma mensagem de texto de uma guria... uma tal “Ivana”... não me digas nada do que fiz senão não vou conseguir continuar contando as coisas... quero mostrar como fico louca por causa de ciúmes... a mensagem dizia: Ok. Lindo as 18... quase morro, não lhe disse nada mas ele viu minha cara e já me conhece, e me perguntou o que acontecia, disse que estava com pressa e sai, mas as 17h da tarde sai de onde estava e fui até a porta do escritório esperar...mas não o vi saindo...pior...sabe todas as coisas que pensei? “que entrou com Ivana lá dentro do escritório quando todos saíram”. Então falei com o segurança dizendo que eu estava esperando por ele o cara me disse: “mas ele já saiu hoje, fechou o escritório às 17h”... minha loucura juntou-se perigosamente com a impotência e a sensação de ter sido enganada... depois pensei: enganada de que? se ele não sabia que eu queria descobri-lo in fraganti...

- in fraganti... me diz em italiano para que haja mais paixão no que contas?

- hahahaha, pareço uma atriz italiana, mas não terminou ai, voltei ao apartamento e Joaquim estava na cama com muita febre: anginas: “que bom que veio antes, me sinto muito mal, sai antes do escritório. Não foi para a faculdade? que bem funcionou o teu inconsciente que te trouxe para o meu lado”. Me deu uma culpa horripilante. fui fazer um chá e comecei pensar: “esta vez não se encontrou com Ivana pela angina; mas é certo que se encontram amanhã ou depois”. Então quis ler novamente o celular mas não tinha ele... então lhe dei um chazinho e ele dormiu, desmaiou de tanta febre. Ai peguei o celular e li: Ivana, vou com febre para casa, deixemos para sexta. E a resposta dela: “okis”: Okis???? quem pode dizer essa frase? Uma idiota que deve ter tranças e comer pirulito.

- Muito entusiasmo, muito, muito, com essas mensagens.

- Sim, mas estava sofrendo, estava passando mal. Quando Joaquim acordou que lhe perguntar e não sabia como fazer para que não se desse conta que estive “espionando o telefone” . Me encostei ao lado dele, ainda com 40º de febre, e lhe disse: “conheces alguma Ivana?”. Ele estava meio delirando e me disse: “nós dois a conhecemos”. Pior. Tudo era pior. Os ciúmes são o pior, a desconfiança é o pior. “Como nós dois a conhecemos?” e já estava dormindo outra vez, e essa angina puta que o derrubou novamente.

- E em ti haviam despertado todos os fantasmas e todas as febres.

- Sabe com que relacionei? quando era guria e ficava doente, minha mãe não ia ao trabalho e eu, claro, não ia para a escola, e uma vez que minha mãe não pode faltar ao trabalhoe quem ficou cuidando de mim foi minha avó; tive um ataque de ira tão espantoso, que estraguei todas as bonecas que tinha: a que mais gostava escrevi na cara com uma caneta azul a palavra “idiota” e meti um olho pra dentro; e o urso que dormia todas as noites, eu cortei as orelhas com uma tesoura, e uma boneca que caminhava, que era invejada por todas as minhas amigas, lhe arranquei as pernas. Minha avó me olhava e não podia reagir, só dizia: “Não seja má. Não é bom ser assim má”.

- E todo esse ataque destrutivo foi porque tua mãe não podia ficar?

- Foi, creio que foi, porque minha mãe disse que não poderia ficar porque seu chefe tinha a encarregado de algo “especial” para esse dia e era “impossível” faltar.

- Teu ataque foi brutal. Fostes até o fundo dos abismos e quebrastes tudo que amavas.

-  ai me dei conta que meus ciúmes e eu éramos perigoso juntos. Depois me repreendi, fiquei com medo das minhas reações. Quando passou, me abraçava na minha boneca escrita e torta e já não era a mesma. Eu queria voltar o tempo atrás, mas minha boneca me olhava desde o buraco no olho empurrado. quando minha mãe chegou de noite, e viu esse apocalipse começou chorar. Nem pude provocar.

- Vou deixar de te tutear, porque parece que com você é melhor tomar distancia.

- Ai não Ana... se só te contei isso e me diz que vai te distanciar, se te conto o que fiz depois não vai querer mais me atender.

- Te escuto.

- Esse dia da febre do Joaquim, dormi também e sonhei com uma guria loira com tranças que desfilava de biquíni pela calçada onde tomávamos café na esquina de casa. E Joaquim fazia como se não a conhecia e eu me dava conta que era a guria que atende na farmácia, que é muito linda e todos querem ser atendidos por ela quando vão comprar qualquer buscapina de merda. Depois se sentava na nossa mesa e Joaquim lhe dizia: é a irmã de X... não sei quem era esse que falou, e a guria disse: “Não, sou Silvina”... e ai acordei, tão assustada. Eu não sou loira nem tão linda como a da farmácia. E não tenho irmãos.

- Mas talvez o que havia no sonho de destaque era que Joaquim fazia como se não a conhecia. Talvez se ele soubesse que está lendo as mensagens dele preferisse fazer como se não te conhece.
- É que quando fico ciumenta, nem eu me conheço.
- continuamos na próxima
- nãooooo... não pude contar nada do quilombo e da loucura.
- te espero amanhã às 12h.
- buenoooooo.

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