PÚBLICO: em qualquer enfermidade podemos encontrar um componente psíquico?
MOM: em quase todas as enfermidades se pode demonstrar um componente psíquico, em quase todas, sim. Qual é a pergunta?
PÚBLICO: dizemos que a ideologia é inconsciente. A maneira de enfermar também é ideológica?
MOM: Não, também é inconsciente.
Há enfermidades muito psíquicas, mas, que dão transtornos físicos, que são doenças, a meu entender graves porque se confundem com doenças físicas mas são psíquicas. Então, uma coisa é o tratamento paliativo, médico...
Tenho uma úlcera sangrando, tenho que ir para a cirurgia. Não há interpretação que faça parar a úlcera de sangrar, mas a úlcera chegou a sangrar por fatores psíquicos, não por fatores biológicos.
Não há nenhum fator biológico que explique o aumento do ácido clorídrico no estômago. Não há teoria médica, nem teoria físico-química que explique isso, mas, há teorias psíquicas que explicam o porque do aumento do ácido clorídrico nos ulcerosos.
Agora que vem a primavera, pobre de nós, ligamos a televisão e dizem: vai ficar doente da asma, de alergias e se não te cuidar vai adoecer disso e daquilo... tudo mentira.
Para adoecer de alergia tenho que ter uma constituição alérgica. Os franceses do século passado falavam das doenças e as classificavam: Gastrópata que era uma pessoa que sem estar doente do estômago ia adoecer do estômago. Cardiópata era a pessoa que sem estar doente do coração iria adoecer do coração.
Então, isso quer dizer que já faz um século e pouco que se sabe que havia certos contextos, certa estruturação, psico-biológica se preferem, que indicava o caminho para adoecer.
PÚBLICO: então havia uma capacidade para enfermar?
MOM: Sim, é preciso ter uma capacidade para enfermar. Em uma cidade onde se adoece 90% da população de gripe, e eu não adoeço de gripe, é o mesmo que dizer que sou incapaz, exatamente, porque se 90% adoece e eu não, quer dizer que há uma incapacidade no meu corpo para adoecer de gripe, quando todos adoecem. Por ai, por alguma questão narcísica, não adoeço para me diferenciar, pode ser.
CHARLA - amor, trabalho, sexo, poesia e psicanálise, com Miguel Oscar Menassa
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