sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"há algo incontrolável em tudo aquilo que é importante para o ser humano"

Público – Gostaria de perguntar algo sobre o sexo, disse que o sexo era inconsciente e que em algum lugar era algo que não se podia controlar, então fiquei pensando se é a intenção de controlar o sexo que faz adoecer.


MOM – na intenção de controlar a sexualidade, é onde adoeço, sim senhorita. Há algo incontrolável.

Por que, se minha mãe é loira, alta e magra, vou gostar das mulheres baixas, morenas e um pouco cheinhas? A menos que me submeta a uma revisão psicanalítica. Se me submeto a uma revisão psicanalítica pode ser que chegue a compreender que a passagem temporal-espacial entre minha mãe e a escolha que faça de mulher, era precisamente para evitar uma mulher além de minha mãe, e eu terminasse apaixonado por mulheres tão diferentes de minha mãe.

Acredito que há algo incontrolável em tudo aquilo que é importante para o ser humano. Porque na poesia também há algo incontrolável. Os poetas que querem controlar a poesia são muito maus poetas. E há muitos poetas que controlam a poesia, que controlam o que escrevem, mas não são poetas, são jornalistas. Os grandes poetas não controlam o que escrevem, nem têm inspiração.

Os grandes poetas se sentam todos os dias a escrever, todos os dias. eu já tenho 70 anos e não deixei de escrever um dia sequer. Um dia que deixei de escrever fiz um poema onde digo a minha amada que, por favor, me ajude a esconder as páginas em branco para que ninguém nunca saiba que houve uma tarde , um dia, que não pude escrever. Um dia, mas no outro dia escrevi um poema do dia que não escrevi, assim que estou salvo. Todos os dias tem que escrever.

Os grandes narradores, W. Faulkner escrevia todos os dias, Sartre escrevia todos os dias, com horário. Faulkner se levantava e ia para a bodega escrever, mas Sartre tinha horário, escrevia até as quatro da tarde, depois das quatro da tarde ia ao café se encontrar com seuas amigos, falar, de que? do que tinha escrito de manhã.


CHARLA - amor, trabalho, sexo, poesia e psicanálise, com Miguel Oscar Menassa.

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