sábado, 2 de outubro de 2010
SESSÂO NÃO VELADA - a sessão escrita de Ana, a psicanalista.
Querida Estela:
Escrevo na primeira hora da manhã. Hoje é quarta-feira, e na tarde irei ao consultório...
Fevereiro me dá a oportunidade de um dia livre. Voltou de suas férias?... (como havíamos combinado, te escrevo diariamente).
Faz alguns dias que tudo que acontece, entra pela cadeia associativa das férias: fazer uma viajem, a praia, os aviões que escuto pela janela do meu quarto quando começa a manhã, as passagens que estão baratas, o passaporte que tenho que renovar.
Bueno, agora penso que tenho que me renovar. Fazer novas leituras do que já li, começar um novo livro, voltar a escrever.
Quando era pequena, meus pais tinham uma casinha pequena e fria, nas serras. Tinha as paredes de azulejo escuro e na entrada da casa, seu nome: “Villa Regina”, em arame branco.
Ficávamos felizes com a chegada do verão para ir para a Villa, e durante o ano olhávamos as fotos das férias com a esperança que voltasse logo o verão. Mas para minha mãe não era assim, ela se preocupava muito com essa casa: cada vez que chovia, sofria porque a casa estava tão longe, que nem ficávamos sabendo se lá tinha chovido ou não. E se uma janela tivesse aberto com o vento?... Amava e odiava a casa, na mesma, e sustentada, proporção.
Comprar essa casa foi idéia do meu velho, que gostava da serra, do ruído do arroio, e cantar El Burrito cordobés no carro enquanto viajávamos.
Nos dizia: “olhem que montanhas!!!”
São serras, falava eu, para mostrar que ele estava equivocado, para saber mais do que ele... E ele respondia:”Essas são coisas de tua mãe...”
Para meu irmão e eu era maravilhoso ir até as montanhasserras. Chegavam as festas e minha velha começava a sentir que era difícil deixar a casa de Buenos Aires. Sempre lhe partia o coração entre esses amores. Lhe partia o coração... quando morreu, pensei essa mesma frase... lhe partiu o coração, entre não querer viver mais sem poder caminhar, e ter que deixar-nos sem a sua presença.
Em mim também partiu o coração, mas outro coração.
Partiu em mim a palavra c-o-r-a-z-ó-n.
Nesse dia escrevi desenfreadamente, tudo me remetia a aessa frase “coração partido”... metades vermelhas, negros amos governando as metades, a dor do amor. Tchau mamãe...
A enfermeira nos disse: “não sabemos o que aconteceu... estava bem... não há explicação”...Não explique nada, lhe partiu o coração... como aqueles pedaços de vestígios, entre a cidade e a serra. Os ventos que destruíram as janelas de sua casa, naquela distancia, lhe golpearam o peito. Tinha vento entre as costelas, barulho de vento... e esse ruído nunca quis desaparecer. Não nos explicamos, insistia a enfermeira olhando para a maca vazia.
Foi o vento, a chuva, as moscas varejeiras que lhe sussurravam há 45 anos. Foi isso. Não explique.
Querida Estela, hoje chove em todas as direções, na serra, na Croácia, na China.
Até amanhã.
Gracias por ler-me
Ana.
de Marcela Villavella - acompanhe também seu blog -
latramamericana.blospot.com.br
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário