quarta-feira, 27 de outubro de 2010

SESSÃO NÃO VELADA: Vanessa

HOJE NÃO POSSO IR

 
Querida Ana:



Sabe quem não vai à sessão hoje?

Adivinhou. Tenho um dia complicadíssimo e como me ofereceu a possibilidade de escrever, ai vai:
Estou sentada na beirada da cama com o notebook e comendo um iorgurte. (buena chica)

Faz uma hora que apaguei o cigarro (o primeiro da manhã, o último da minha vida. Não vou fumar mais).
Pertunguntará por que, se tanto insisti que não iria deixar de fumar, masmo com os que me olham e que abanam perto da minha cara.
Ontem me dei conta de algo.
Estava escrevendo no computador, fumando, me sentindo livre como a fumaça e de repente caiu uma cinza fora do cinzeiro. Percebi. Fui buscar. Empurrei a CPU, levantei as pantufas. Nada. Pensei: “está pelo tapete, amanhã passo o aspirador”. E segui escrevendo e esqueci.
Depois fui deitar, tomei meu chá de laranjas (feito por mim, casquinha por casquinha), e dormi e sonhei algo incoerente:

“Estava em Córdoba. Entrava na Biblioteca e pedia um livro, creio que era de terror, (insólito, nunca li um livro de terror. Eu me dava conta do absurdo, o que faço numa Biblioteca em Córdoba pedindo um livro de terror.”
Sabe com o que associei...quando algo é mal ( que exagero tudo, quanta exageração) digo: é o terror.
E hoje de manhã tive uma experiência de terror.

Me levantei com meu pijama branco imaculado, fui para a cozinha tomar meu café (pães torrados, manteguinha, mel) e acendi um cigarro me sentindo mal ( como se tivesse acendido em homenagem a algo. Mas sem estar de acordo com essa homenagem) e em desacordo com a agenda do dia: às 18h encontro com Hernán para devolver o dinheiro que me emprestou (que raiva, não querida devolver nada).
Fui para o banheiro lavar o rosto e os dentes e vi no espelho, que a cinza perdida de noite estava no meu pijama.

Dormi com a cinza.

Lembrei de minha avó. Quando morreu meu avô Hilário, o cremaram, e ela tinha na mesa de cabeceira, uma caixa de madeira com as cinzas dele. E sempre me dizia: Antes dormia ao lado dele e agora ao lado de suas cinzas.

Dormi com minhas cinzas?

Algo vivo e algo morto meu dormindo comigo enquanto eu vivia um sonho?

Então, como não posso não voltar a dormir esta noite, e como não posso ter uma insônia permanente para não me assustar ao acordar, decidi deixar de fumar.

Já sei que mesmo assim vou deixar alguma cinza minha por ai. Mas bueno, espero não ter que ver-las por enquanto. Vou comer outro iogurte, é uma maneira de voltar ao imaculado.

O que me responderá de todo esse delírio???

beijoooooooooo

Vanessa

Marcela Villavella - psicanalista Grupo Cero
acompanhe também seu blog - http://www.latramamericana.blogspot.com/

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