quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SESSÃO NÃO VELADA - Fernando

campainha...


- olá...cheguei bem? esqueci do relógio.

- sim, chegou. Adiante.

- sempre que chego na sessão me pergunto quem é o paciente que vem antes que eu.

- ...

- nunca tem ninguém antes de mim?

- não é o único, antes que você alguém terá, o que está querendo saber...sigo escutando...

- não é isto que queria falar, isso é só algo que penso quando chego na sessão, mas não me parece um tema para falar.

- escuto

- é que as vezes você mete a colher...digo qualquer bobagem e se agarra nisso como se tivessem coisas importantes ai...era somente um dizer, nada mais...uma dessas coisas tontas que se pensa durante o dia.

- sim, há muitas coisas tontas que se pensam durante o dia, mas de todas essas coisas tontas, você decidiu falar de uma, e ao dizer-me deixou de ser uma bobagem.

- isso é o que quero dizer com meter a colher. Agora parece um tema o que perguntei ao entrar...e eu queria falar de outra coisa...

- pode falar do que quiser, eu o escuto.

- sim já sei que me escuta, mas quem as vezes não sabe falar sou eu, queria falar de outra coisa...Gustavo me ligou a noite...fazia muito que não me ligava...bueno...depois de falarmos trivialidades durante cinco minutos, me perguntou se eu não tinha me dado conta que ele não me procurava fazia um ano...e lhe disse que não...que havíamos falado há menos tempo...e ele insistia que fazia um ano.

- e o que aconteceu há um ano?

- eu não me lembro...ele se empenhava em dizer que fazia um ano que não nos víamos nem falávamos...e me dava datas de nossos últimos encontros...bom...para encurtar...me disse que eu não sei conversar com ninguém, que ele gosta muito de mim e por isso voltou a ligar, mas que na ultima oportunidade que me deu há um ano, eu não a aceitei.

- e qual foi a ultima oportunidade?

- não sei...coisa dele...bobagens...agora liga e me diz o que ele está pensando...e eu o que tenho com isso?

- se disse a você, algo terá a ver com isso...

- não sei...de verdade...não sei...é que Gustavo é um tipo raro.

- raro?

- sim, sensível demais para o meu gosto.

- para seu gosto?

- bom, você me entende. Meio afeminado...não sei...sempre quer conversar das coisas que vivemos, se vamos ao cinema quer ir tomar um café para falar do filme, ou se liga por telefone para comentar um livro que está lendo...quer me fazer pensar as coisas que digo como se fosse uma moça...

-como eu?

- hahahaha...sim pode ser...você deve ser brava, sempre está ai tratando de enlaçar tudo o que digo...

- como Gustavo...

- eu venho me analisar e hoje se decidiu me deixar louco...me mete em armadilhas.

- Fernando, quem se mete em armadilhas parece ser você mesmo, sempre querendo ver por onde escapar das coisas: de um filme, de um amigo, de uma sessão de análise.

- eu?

- ...

- as vezes me sinto encurralado. Não sei porque sigo vindo. Não deveria estar contente, feliz de vir me analisar?

- não sei...por que deveria estar algo para analisar-se?

- Ana...não sei que horas são porque não trouxe o relógio, mas parece que o paciente que vem depois já tocou a compainha...queria dizer que é possível que não queira seguir me analisando.

- bom tema para a próxima sessão.

- qual tema?

- sua pergunta sobre o paciente que se deita antes de você nesse divã...

- hahahaha é muito brava, muito brava...

 
Marcela Villavella - psicanalista e poeta Grupo Cero
acompanhe também seu blog - http://latramamericana.blogspot.com

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