quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ALGO SOBRE O CORPO DA MULHER...



São duas vias postas em jogo, uma passiva, que consiste em se fazer objeto do desejo, e outra ativa, que se move sempre em busca do Outro inconsciente. Foi feita uma associação da via passiva referente ao feminino e da via ativa com o masculino, mas na realidade o desejo sexual está articulado com o significante e o significante não reconhece a diferença anatômica em nenhum outro símbolo que não seja o falo. São dois pólos que vão oscilar entre uma identificação com ser o falo e outra identificação onde se tratará de ter o falo.


O feminino, essa via passiva que corresponde com uma identificação do ser em um objeto de desejo, é considerado as vezes como o inominável, termo que evoca o horror à castração, mesmo que ao feminino também podemos referir como um lugar topológico, como quando dizemos “A Mulher”, é indizível porque ocupa o lugar do que na palavra, resiste à palavra. Ocupa esse lugar vazio que a palavra somente desloca e não alcança.

As vezes todo o corpo da mulher faz um mito da causa desse desejo inacessível e se transforma em um objeto. Ou seja, mantém a qualquer preço um sonho de um gozo mais além do signo da separação, que é primeira brecha que representa o falo. A mulher encarna esta ilusão, e esta ilusão aparece em todas as suas relações e assim uma aposta ao impossível instala o fantasma feminino, ser objeto de desejo.


seguimos na próxima com mais sobre o feminino.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

cositas del amor...



Para a psicanálise o amor é da ordem do desejo: não uma paixão imaginária de onde o sujeito tende, sem conseguir, a completar-se, é um dom ativo.

Cada vez que volto a cair na ilusão da completude tenho inibições para trabalhar, para amar, para criar.

O sujeito, quando aceita que não pode possuir o outro, aceita sua carencia e se transforma em sujeito desejante em contínua transformação.

O amor surge, portanto, onde um amado se transforma em amante, isto é, um desejável em desejante.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

MUITOS AMORES...

Os grande escritores sempre souberam que há poucos temas que comovem a vida: a morte, a dor, a fome, o amor. Os psicanalistas sabemos que para a experiência clínica o tema do amor tem uma dimensão crucial porque no tratamento vai iniciar uma viajem amorosa onde o analista deseja curar e o paciente fala esperando ser amado por quem o escuta, e assim se põe em funcionamento as distintas problemáticas do amor.


A palavra amor é ambígua, eminentemente polissêmica, é a polissemia encarnada, já que se pode aplicar a situações muito diferentes: fala-se do amor entre um homem e uma mulher, do amor entre irmãos, ou do amor entre os pais e filhos, do amor a um projeto, do amor a um animal, ou amor a si mesmo.

Mas também é uma palavra que é habitual usar para qualquer situação comum, por exemplo, na expressão – que amor! – para dizer que algo é lindo ou amável, ou comovente. Mas também podemos chamar de libido, ou Eros.

Também falamos de amor sublime, ou de amor não correspondido, ou de amor de transferência dentro da psicanálise, ou do amor cortês como o que relata Cervantes entre Dom Quixote e Dulcinéia.

E podemos usar a palavra amor para inúmeras situações diferentes, mas essa ambigüidade potentemente ativa, fecunda nessa mesma ambigüidade, e vem mostrar que AMOR é um significante que toca tanto ao corpo como à palavra.

Marcela Villavella na palestra - O AMOR NA PSICANÁLISE

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

AMOR E PSICANÁLISE

O poeta universal Julio Cortázar, insitia que o amor não vem pronto, o amor deve ser construido. O amor é uma substancia tão especial que é preciso fazê-lo todos os dias. A felicidade e o amor, em principio, parecem inseparáveis. Mas sabemos que tudo na vida requer um trabalho, o amor também.

Na psicanálise vemos que o amor é uma tarefa constante e que carrega junto uma preocupação, algum medo. Quer dizer, o amor não é algo ideal ou idealizado, e sim é algo que não podemos prescindir.


Palestra - O amor e a Psicanálise, com Marcela Villavella.



BOLERO



Qué vanidad imaginar

que puedo darte todo, el amor y la dicha,

itinerarios, música, juguetes.

Es cierto que es así:

todo lo mío te lo doy, es cierto,

pero todo lo mío no te basta

como a mí no me basta que me des

todo lo tuyo.



Por eso no seremos nunca

la pareja perfecta, la tarjeta postal,

si no somos capaces de aceptar

que sólo en la aritmética

el dos nace del uno más el uno.



Por ahí un papelito

que solamente dice:



Siempre fuiste mi espejo,

quiero decir que para verme tenía que mirarte.



Y este fragmento:



La lenta máquina del desamor

los engranajes del reflujo

los cuerpos que abandonan las almohadas

las sábanas los besos



y de pie ante el espejo interrogándose

cada uno a sí mismo

ya no mirándose entre ellos

ya no desnudos para el otro

ya no te amo,

mi amor.

Julio Cortázar

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SESSÃO NÃO VELADA - Fernando

campainha...


- olá...cheguei bem? esqueci do relógio.

- sim, chegou. Adiante.

- sempre que chego na sessão me pergunto quem é o paciente que vem antes que eu.

- ...

- nunca tem ninguém antes de mim?

- não é o único, antes que você alguém terá, o que está querendo saber...sigo escutando...

- não é isto que queria falar, isso é só algo que penso quando chego na sessão, mas não me parece um tema para falar.

- escuto

- é que as vezes você mete a colher...digo qualquer bobagem e se agarra nisso como se tivessem coisas importantes ai...era somente um dizer, nada mais...uma dessas coisas tontas que se pensa durante o dia.

- sim, há muitas coisas tontas que se pensam durante o dia, mas de todas essas coisas tontas, você decidiu falar de uma, e ao dizer-me deixou de ser uma bobagem.

- isso é o que quero dizer com meter a colher. Agora parece um tema o que perguntei ao entrar...e eu queria falar de outra coisa...

- pode falar do que quiser, eu o escuto.

- sim já sei que me escuta, mas quem as vezes não sabe falar sou eu, queria falar de outra coisa...Gustavo me ligou a noite...fazia muito que não me ligava...bueno...depois de falarmos trivialidades durante cinco minutos, me perguntou se eu não tinha me dado conta que ele não me procurava fazia um ano...e lhe disse que não...que havíamos falado há menos tempo...e ele insistia que fazia um ano.

- e o que aconteceu há um ano?

- eu não me lembro...ele se empenhava em dizer que fazia um ano que não nos víamos nem falávamos...e me dava datas de nossos últimos encontros...bom...para encurtar...me disse que eu não sei conversar com ninguém, que ele gosta muito de mim e por isso voltou a ligar, mas que na ultima oportunidade que me deu há um ano, eu não a aceitei.

- e qual foi a ultima oportunidade?

- não sei...coisa dele...bobagens...agora liga e me diz o que ele está pensando...e eu o que tenho com isso?

- se disse a você, algo terá a ver com isso...

- não sei...de verdade...não sei...é que Gustavo é um tipo raro.

- raro?

- sim, sensível demais para o meu gosto.

- para seu gosto?

- bom, você me entende. Meio afeminado...não sei...sempre quer conversar das coisas que vivemos, se vamos ao cinema quer ir tomar um café para falar do filme, ou se liga por telefone para comentar um livro que está lendo...quer me fazer pensar as coisas que digo como se fosse uma moça...

-como eu?

- hahahaha...sim pode ser...você deve ser brava, sempre está ai tratando de enlaçar tudo o que digo...

- como Gustavo...

- eu venho me analisar e hoje se decidiu me deixar louco...me mete em armadilhas.

- Fernando, quem se mete em armadilhas parece ser você mesmo, sempre querendo ver por onde escapar das coisas: de um filme, de um amigo, de uma sessão de análise.

- eu?

- ...

- as vezes me sinto encurralado. Não sei porque sigo vindo. Não deveria estar contente, feliz de vir me analisar?

- não sei...por que deveria estar algo para analisar-se?

- Ana...não sei que horas são porque não trouxe o relógio, mas parece que o paciente que vem depois já tocou a compainha...queria dizer que é possível que não queira seguir me analisando.

- bom tema para a próxima sessão.

- qual tema?

- sua pergunta sobre o paciente que se deita antes de você nesse divã...

- hahahaha é muito brava, muito brava...

 
Marcela Villavella - psicanalista e poeta Grupo Cero
acompanhe também seu blog - http://latramamericana.blogspot.com

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AMOR E PSICANÁLISE

PARA A PSICANÁLISE, O AMOR É O INICIAL.
É O QUE MARCA O COMEÇO DA VIDA.


Palestra - O amor e a psicanálise - Marcela Villavella.